O que faz de alguém um monstro?
Análise filosófica sobre a Trupe Fantasma de Hunter x Hunter. Descubra como a Cidade do Meteoro dialoga com a realidade brasileira, Racionais e Facção Central.

“Para sempre posta, A preciosa lua está morta
Os outros lamentam em uma grande cerimônia
E erguem aos céus
A poderosa lua gélida
Com a melodia De todos os lamentos”
Em Hunter x Hunter, As Aranhas nos apresenta um dos maiores paradoxos morais da ficção. Eles são assassinos brutais e saqueadores impiedosos que massacram dezenas de inocentes sem hesitar. Para o resto do mundo, são apenas aberrações sem coração.
Mas, entre eles, existe uma lealdade inabalável e um amor genuíno. A genialidade de Yoshihiro Togashi neste arco é nos obrigar a encarar uma verdade profundamente incômoda: a empatia humana pode ser aterrorizantemente seletiva.
Para entender essa distorção, é preciso olhar para a origem da Aranha: a Cidade do Meteoro. Um gigantesco lixão onde o resto do mundo descarta tudo o que não quer mais — de armas e lixo tóxico a seres humanos indesejados.
É impossível olhar para o isolamento da Cidade do Meteoro sem traçar um paralelo doloroso com a realidade brasileira. Como os Racionais MC's eternizaram: "O mundo é diferente da ponte pra cá". A dinâmica de formação da Trupe espelha o recrutamento das facções no Brasil. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, milhares de jovens e adolescentes são vítimas da violência letal no país anualmente, sendo engolidos pela pobreza e falta de oportunidades para dentro de facções criminosas. O crime muitas vezes oferece a perversa ilusão daquilo que o Estado negou: status, proteção e uma "família".
Para a Trupe Fantasma, a violência brutal que aplicam em Yorknew não é sadismo aleatório; na visão deles, isso aqui é uma guerra, e na guerra o que vale é dinheiro. A postura do grupo ecoa o discurso cru e visceral do grupo de rap Facção Central, que sempre escancarou como o sistema fabrica os próprios monstros que depois tenta exterminar. Para quem nasce em um lugar onde o ser humano é descartável, a "Aranha" deixa de ser uma escolha criminosa e passa a ser a única bússola moral possível. Se a "sociedade civilizada" decidiu que eles sequer existem, por que eles deveriam ter empatia por ela?
O ápice dessa lealdade distorcida e melancólica atende por um nome: Pakunoda.
Quando encurralada pelas correntes e pelo ódio de Kurapika, a lei da Aranha era clara: a sobrevivência do grupo vem antes da vida do líder. A lógica fria exigia que ela abandonasse Chrollo à própria sorte. Mas a assassina implacável hesita.
Ao escolher caminhar direto para a própria morte, disparando suas balas de memória no coração de seus companheiros, Pakunoda não morre como uma vilã fria. Ela morre como uma mulher que sacrifica tudo pela sua família. Capaz de pisar em cadáveres de inocentes sem piscar, mas que dá o seu último suspiro com a ternura de quem protege aqueles que ama.
É muito fácil odiar vilões bidimensionais que representam o mal puro e absoluto. O difícil é lidar com a Trupe Fantasma. A dor que eles sentem pela perda de um dos seus é tão real e humana quanto a dor das inúmeras vítimas que eles mesmos deixam pelo caminho.
Fontes:
Violência e mortes contra crianças e adolescentes crescem no Brasil
Da ponte pra cá - Nada Como Um Dia Após O Outro Dia
Facção Central - Isso Aqui É Uma Guerra